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22/07/20 | Centro Cultural

CULTURA EM PAUTA: A ARTE DE TAKAI

FotoDudi Polonis

Cantora, compositora, instrumentista, relações públicas e escritora. Tudo isso é Fernanda Takai, vocalista da banda mineira Pato Fu, que, em 2020, completa 28 anos de carreira. A série Cultura em Pauta, produzida pela Assessoria de Comunicação do Minas Tênis Clube, traz, esta semana entrevista com a  artista, que lançou, em julho, o disco “Será que você ainda vai acreditar?”. O trabalho conta com  composições próprias e de outros músicos nacionais e estrangeiros e releituras de canções de Amy Winehouse e Michael Jackson. “É um disco que traz canções novas e algumas vindas de outros tempos, mas que se conectam com a minha vontade de sempre: diversidade, suavidade e reflexão”, explica a cantora.

A seguir, Fernanda fala de sua carreira, da sua faceta escritora, das experiências no mercado internacional, dos encontros com Andy Summers, Maki Nomiya e o grupo de teatro de bonecos Giramundo. Ela também analisa o comportamento do mercado cultural durante a pandemia. “Eu não fiz muitas lives, não gosto desse formato limitado e estou respeitando o isolamento até que haja um sinal verde da ciência. As artes têm sofrido muito, mas acho insubstituível a experiência ao vivo, o contato com a plateia. Esperarei o tempo que for para levar o meu novo álbum com tudo o que tem direito: minha equipe, músicos, cenário… Enquanto isso, temos que descobrir um jeito de manter as pessoas vivas, economicamente inclusive”, diz.

 MTC – Como foi o processo de gravação do álbum “Será que você vai acreditar?”, lançado em julho?

Fernanda Takai – A gravação do disco já estava programada para o primeiro semestre deste ano, seria intercalada com meus shows solo e os do Pato Fu. Quando toda a agenda caiu, ficamos focados no processo de gravar e deixá-lo pronto, sem pressa. Temos um estúdio em casa e John, como produtor e músico, me proporcionou essa autonomia. Como havia a premissa do isolamento, que estamos respeitando à risca, fizemos tudo sozinhos. É um disco que traz canções novas e algumas vindas de outros tempos, mas que se conectam com a minha vontade de sempre: diversidade, suavidade e reflexão.

MTC – Além de cantora, você é cronista e escritora com quatro livros publicados, dois infantis e dois adultos, ganhou o prêmio Jabuti em 2017. Como surgiu a faceta escritora?

FT – Fui convidada a escrever para revistas e jornais devido à minha visibilidade na música, não há dúvida. Mas acabei encontrando outra forma de me comunicar com outros públicos e, com o passar dos anos, me senti cada vez mais confortável. Lancei os livros e imagino que é uma janela que não vai se fechar. Tenho vontade de escrever mais, só que eu precisava me concentrar na música de novo.

MTC – Você tem ascendência japonesa e portuguesa. É notório como a cultura japonesa influencia a sua música. Mas e a portuguesa?

FT – Acho que a força de Portugal se faz presente em nossa própria vida coletiva, como brasileiros. Veja como Minas Gerais tem tanto de Portugal, seja pela forma de receber as pessoas, de se falar no diminutivo e temos o desafio que é levar a arte em português para todos os cantos do mundo. Tenho grandes amigos portugueses ou morando por lá e estive fazendo uma espécie de preparação para gravar o “O Tom da Takai”, meu álbum anterior, em terras portuguesas. Fiquei por alguns dias percorrendo alguns sítios históricos, ouvindo belos fados, me alimentando da culinária fantástica e dos vinhos da terra. Cuidando da alma e do corpo, mergulhada nas paisagens lusitanas. Talvez seja mais sutil e mais familiar a todos, mas está em mim também a me “saramagar”.

MTC – São quase três décadas da banda Pato Fu que conta com 13 discos e cinco DVDs. Como nasceu a ideia da banda? Você pode falar sobre a emoção de ouvir a primeira canção do Pato Fu no rádio? Qual música foi?

FT – Completamos 28 anos numa estrada bem produtiva e feliz, continuamos a ter uma relação afetuosa e,  embora cada um de nós, além da banda, tenha outros projetos musicais ou não, o Pato Fu é o elo maior. Todos já tivemos outros grupos, no fim dos anos 1980. Só com o Pato Fu, com uma formação em trio, totalmente ousada e diferente do que havia na cena nos anos 1990, chamou a atenção de muita gente. Foi o Tutti Maravilha que tocou primeiro nossas canções na Rádio Inconfidência, e ele generosamente deve ter feito isso com outros artistas também. Acho que a primeira música a tocar na rádio foi “O Processo de Criação Vai de 10 até 100 mil”! Ouvir sua música no ar pela primeira vez é uma sensação muito boa de que uma barreira foi vencida. Mais gente poderia se conectar com nossa banda, a partir dali.

MTC – Uma vez, no camarim do Teatro do Minas, você falou sobre a “Canção para você viver mais” e o marco que ela foi nas rádios (a primeira canção do Pato Fu a tocar em rádio da dita mpb). Conte sobre isso.

FT – A banda vinha tocando em muitas rádios pop rock pelo país afora, muito executada em paradas de videoclipes, e as rádios chamadas adultas, em São Paulo e no Rio, ainda não tinham dado muito espaço pra gente, mas essa faixa furou os segmentos todos por causa da emoção que causou nas pessoas. Até hoje é uma das mais tocadas de nosso repertório.

 

MTC – Música de brinquedo é uma marca importante na trajetória do Pato Fu. Como surgiu a ideia de tocar canções usando os instrumentos de brinquedo? Como o Teatro de Bonecos Giramundo entrou nessa história? Foi a partir daí que veio a ideia para a montagem de “Alice no país das maravilhas”?

FT – Nossa história com o Giramundo é antiga, desde o lançamento do primeiro disco, em 1993, eles estavam com a gente numa participação especial. Já tínhamos pensado em fazer um álbum com instrumentos de brinquedo em 1995, quando ouvimos um disco da turma do Snoopy cantando Beatles, mas o Pato Fu era uma banda muito nova para encarar algo assim na discografia inicial, não é simples. Só quando tivemos a nossa filha, a Nina, imaginamos que criar um espetáculo com músicas pop de adulto com sonoridade de brinquedo poderia ser um desafio muito divertido. Como as crianças que cantaram no disco não podiam sair em turnê, pedimos ao Giramundo que criasse monstros cantores e assim, além da música, teríamos o teatro de bonecos trazendo mais uma camada interessante. A experiência deu tão certo que fazer “Alice” foi um passo natural, nos complementamos muito bem!

 

MTC– Explique sua relação com a bossa nova? Você gosta de ser comparada com Nara Leão?

FT – Eu adoro bossa nova e me sinto muito à vontade quando canto. Sempre que ouvia cantores cantando baixinho e suave, me identificava. Mesmo cantando numa banda pop, acho que mantive esse DNA de ouvinte de vozes mais tranquilas. Nara Leão é incomparável, tem uma história muito rica e só dela. Eu sou apenas uma fã que também canta.

MTC – Você tem sólida carreira internacional. Fale como foi o encontro com Andy Summers e Maki Nomiya?

FT – Tudo foi acontecendo por afinidades. Eu ouvia ”The Police”, mas nunca imaginei que o Andy Summers fosse apaixonado por música brasileira, e quando (Roberto) Menescal nos apresentou, ele gostou da minha voz e me convidou para gravar um álbum de inéditas lá na Califórnia. Uma experiência muito diferente de gravar em meu próprio estúdio, coisa que acontecia com frequência. Já com a cantora japonesa Maki, foi também por sermos fãs da banda que ela tinha nos anos 1990, o Pizzicato Five, que começamos a nos falar em 2008. Para nossa sorte ela também gostou da gente. Desde então, temos nos encontrado para alguns projetos juntas. Mas eu considero essas passagens internacionais ainda um grande bônus. Minha carreira mesmo acontece no Brasil, e ele é tão grande que custamos a dar conta de percorrê-lo numa turnê.

MTC – Neste momento de pandemia, como você vê o caminho da cultura? Você acredita que o consumo de arte voltará a ser como antes? Qual é a sua opinião sobre as lives que pipocam nas redes sociais?

FT – Eu não fiz muitas lives, não gosto desse formato limitado e estou respeitando o isolamento até que haja um sinal verde da ciência. As artes têm sofrido muito, mas acho insubstituível a experiência ao vivo, o contato com a plateia. Esperarei o tempo que for para levar o meu novo álbum com tudo o que tem direito: minha equipe, músicos, cenário… Enquanto isso, temos que descobrir um jeito de manter as pessoas vivas, economicamente inclusive.

 MTC – Indique três discos para se ouvir durante a pandemia.

FT – AbcyÇwÖk, de André Abujamra/John Ulhoa; Só, de Adriana Calcanhotto; e Record, de Tracey Thorn.

 

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