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04/08/17 | Centro Cultural

A bruxa

Clarice texto

A sexta edição do projeto Letra em Cena. Como ler… do Centro Cultural Minas Tênis Clube apresentará o texto de Clarice Lispector sob o olhar da professora doutora de literatura Portuguesa e Brasileira, Nádia Battella Gotlib. A leitura dos textos de Clarice ficará a cargo da atriz Christiane Antuña. Os ingressos gratuitos para a única sessão, no dia 9 de agosto, quarta-feira, às 19h, já estão esgotados.

Segundo Nádia Gotlib, o texto de Clarice não possui uma característica marcante, o escrito da autora ucraniana, radicada no Rio de Janeiro, é inteiramente inovador.  “Há um conjunto de características responsáveis pelo texto de Clarice ser o que é. Ela instaurou um novo modo de construir narrativas e de lidar com a linguagem”, afirma. Nádia, que escreveu dois livros sobre Clarice e algumas dezenas de artigos sobre a autora, diz que “Perto do coração selvagem”, seu primeiro romance, lançado no fim de 1943, surpreendeu a própria Clarice, que não esperava tamanha repercussão”, conta. Por esta publicação, a autora recebeu críticas cruéis. “A crítica negativa, como a de Álvaro Lins (1912-1970), ajuda a entender a importância do romance. Ele considerou o romance ‘incompleto’. Acontece que a romancista optou por uma estrutura de caráter fragmentário, que valoriza os subentendidos patentes nas entrelinhas, valoriza as sugestões, que substituem as certezas de antes”, explica.

Algo marcante no texto de Clarice, apontado por especialistas e amantes da escritora, é a profundidade com que ela mostra seus personagens, apresentando a eles a dimensão do inconsciente. Segundo Nádia, esta forma “foi uma inovação na medida em que a escritora usa o que o crítico Antônio Candido (1918 -2017) chamou de ‘romance de aproximação’. Não se trata de ‘romance psicológico’, que, àquela altura, já era considerado ultrapassado. Trata-se de uma tentativa de o narrador se aproximar, gradativamente, de seu personagem, como se estivesse mesmo acompanhando-o em suas experiências mais íntimas. Por vezes, esse percurso se faz de modo muito intenso, sem dar fôlego ao leitor. É o caso do romance “A paixão segundo G.H.”, um dos momentos mais literariamente bem-sucedidos de sua obra”, constata.

E é por meio dessas intimidades que Clarice colocou aos leitores que, de acordo com Nádia, são conquistados e se apaixonam pela escritora. “A identificação surge da leitura de textos de Clarice. Basta acompanhar suas personagens, os percursos pela intimidade delas, para perceber que há algo em comum entre tais personagens e seus leitores. Aliás, Clarice passou por essa experiência. ‘Mas essa sou eu’, afirmou a autora, ao ler os contos de Katherine Mansfield”, diz. A aura de bruxa que Clarice carrega também tem explicação na questão do mistério da intimidade, na busca pelo sentido da literatura. “Clarice age mesmo como uma ‘bruxa’, em certos textos. Sadicamente, prepara receitas ficcionais que nos atingem no âmago, mexem com nossas entranhas, questiona padrões de comportamento, desmancha certezas de sistemas fechados, abre novas perspectivas de visão de mundo”, explica.

Alguns fãs chamam Clarice de poeta, mas não é correto denominá-la assim. “Clarice não é poeta. Escreveu um livro de poemas que se perdeu. Há alguns poemas, poucos, que foram encontrados pela pesquisadora Aparecida Maria Nunes. Não podemos, pois, considerar que Clarice seja uma poeta (ou poetisa, segundo alguns). Mas é poeta, na medida em que pratica a ‘arte poética’ ou ‘literária’ com tons de acentuado lirismo em alguns de seus textos. E “Água viva” é um desses exemplos”, constata Nádia.

É importante destacar que Clarice é uma referência feminina na literatura nacional. “Sua obra começou a ser traduzida nos anos 1950, na França. E, nos anos 1960, já tinha tradução em inglês de “A maçã no escuro”, por um eminente tradutor, Gregory Rabassa. Nas décadas seguintes, as traduções aumentaram, de modo surpreendente, por vários países. Há uns dez anos, sua obra já tinha sido traduzida em quase 30 línguas. Não é pouco”, analisa.

Letra em cena. Como ler…Clarice Lispector com Nádia Battella Gotlib e leitura de Christiane Antuña

Data: 9 de agosto
Horário:  Quarta-feira , às 19h
Classificação: livre

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