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08/07/20 | Centro Cultural

A SÉTIMA ARTE

Leo Cunha, professor doutor em artes/cinema, fala sobre Chaplin e a produção cinematográfica nacional

Em mais uma entrevista da série Cultura em Pauta, produzida pela Assessoria de Comunicação do Minas Tênis Clube, o escritor e  jornalista Leo Cunha fala sobre os 105 anos do filme “O Vagabundo”, de Charles Chaplin (1889 – 1977), que popularizou o  personagem clássico de Chaplin: o vagabundo bondoso.  Leo Cunha também fez uma análise do cinema nacional, destacando as dificuldades do Brasil em manter a sétima arte como uma atividade industrial, como é nos Estados Unidos. “O cinema industrial é uma arte muito cara. Criar, sistematicamente, uma grande quantidade de filmes (e, mais, de bons filmes) requer investimento na produção, na exibição e até mesmo na audiência. Tivemos períodos em que o cinema nacional se aproximou da consolidação como indústria, como nos anos 1950, com o auge da Atlântida (companhia cinematográfica brasileira fundada em 1941, no Rio de Janeiro, produziu 66 filmes até 1962)”, explica Leo Cunha,  que também é professor universitário, doutor em Artes/Cinema pela UFMG e autor de mais de 60 livros de literatura infantil, juvenil e crônicas.

Saiba mais sobre o cinema no Brasil e no mundo, lendo a entrevista a seguir.

Minas Tênis Clube – O que o advento do cinema trouxe/mudou no mundo da arte?

Leo Cunha – O cinema já nasceu como uma arte popular e híbrida. Surgiu mesclando elementos de várias artes já existentes: o teatro (na encenação, na pantomima), a literatura (nos roteiros e posteriormente nos diálogos), as artes visuais (nos cenários, decoração, figurinos), a fotografia (na angulação, enquadramento, iluminação).

 

MTC – Qual é a importância de Charles Chaplin para a história do cinema mundial?

LC – O cinema de Chaplin – inicialmente como ator, posteriormente como roteirista, produtor, diretor, compositor – trouxe um grande cuidado nos detalhes, no ritmo, na forma de filmar e interpretar. Foi um dos primeiros e um dos melhores a entender como a arte cinematográfica poderia contar uma história complexa e envolvente de forma puramente visual. Chaplin preferia mostrar visualmente do que dizer com palavras, tanto que, após o surgimento do cinema sonoro, ele levou mais de dez anos até rodar um filme inteiramente falado.

 

MTC – Como o filme “O Vagabundo” figura na história da sétima arte?

LC – Este filme, de 1915, teve o grande mérito de lançar e popularizar o personagem clássico de Chaplin: o maltrapilho vagabundo de grande coração. Tanto ele, como outros que retomam o personagem, foram fundamentais para o aprimoramento e a consagração das comédias cinematográficas. Chaplin foi, ao lado de Buster Keaton (1895/1966 – ator, comediante, diretor, produtor, roteirista e dublê), o grande nome da comédia muda.

MTC – O cinema existe no Brasil desde 1897. Por que nunca se consolidou como indústria?

LC – O cinema industrial é uma arte muito cara. Criar sistematicamente, regularmente, uma grande quantidade de filmes (e, mais, de bons filmes) requer investimento na produção, na exibição e até mesmo na audiência. Tivemos períodos em que o cinema nacional se aproximou da consolidação como indústria, como nos anos 50, com o auge da Atlântida. Atualmente, o modo de produção/distribuição da Globo Filmes também é consistente, goste-se ou não da qualidade das obras. Na verdade, a consolidação da indústria televisiva brasileira, a partir dos anos 1970, serviu, em grande parte, como contraponto e como compensação à ausência de uma indústria cinematográfica forte.

 

MTC – Pode-se dizer que movimento Cinema Novo foi o período mais importante do cinema nacional?

LC – Em termos de ousadia, de capacidade de invenção, certamente, é um momento de destaque em nossa história. Embora os filmes do Cinema Novo sejam muito diversos entre si, eles têm em comum uma espécie de rejeição ao modo hollywoodiano de  escrever, dirigir, produzir, interpretar e mesmo divulgar filmes. E maior abertura à influência dos  cinemas  italiano (com o Neorrealismo, por exemplo) e francês (com a Nouvelle Vague).

 

MTC – Qual é o marco do cinema nacional? Por quê?

LC – Existem inúmeros marcos. Podemos apontar um marco pioneiro, com o filme “Limite” (1931); um marco popular, com as comédias da Atlântida; um marco inovador, com o Cinema Novo; um marco da retomada, com “Carlota Joaquina” (1995); mais recentemente, um marco de prestígio internacional, com a obra de Kleber Mendonça Filho. Raramente um diretor nacional emplacou três filmes seguidos de alta qualidade e alto reconhecimento internacional (“O Som ao Redor”, 2012; “Aquarius”, 2016, e “Bacurau”, 2019).

 

MTC – Como especialista, aponte três diretores de cinema que são, em sua opinião, os mais competentes?

LC – Entre os nacionais, Nelson Pereira dos Santos (1928 – 2018), Eduardo Coutinho (1933 – 2014) e Kleber Mendonça. Entre os estrangeiros, cito três que são meus favoritos pessoais: Hitchcock (1899 – 1980), Fellini (1920 – 1993) e Almodóvar.

 

MTC – Na última edição do Oscar, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, surpreendeu o mundo concedendo para uma produção estrangeira, o coreano Parasita (2019), os principais prêmios como melhor diretor, melhor filme estrangeiro e melhor filme. A que se deve isso?

LC – Antes de mais nada, porque é um filme extraordinário, em termos de encenação, ritmo, roteiro, atuações, provocação político-social. Raríssimos filmes venceram tanto o Festival de Cannes quanto o Oscar, e as vitórias foram justas, em minha opinião. Considero “Parasita” uma obra-prima. Para além disso, Hollywood tem há algum tempo buscado ampliar o leque de premiados para fora das fronteiras dos EUA. Não podemos esquecer que, nos dez últimos Oscars de Melhor Direção, nove foram para cineastas não americanos (cinco para o México, um para a França, um para a Inglaterra e um para a Coréia do Sul).

 

MTC – Indique cinco filmes que uma pessoa não pode morrer sem assistir.

LC – Só cinco? Quase impossível, mas vamos lá: “Crepúsculo dos Deuses” (1950), de Billy Wilder; “Cantando na Chuva” (1652), de Stanley Donen e Gene Kelly; “A Doce Vida” (1960), de Federico Fellini; “Janela Indiscreta” (1954), de Alfred Hitchcock; “Fale com ela” (2002), de Pedro Almodóvar.

E cinco brasileiros: “Vidas secas”(1963), de Nelson Pereira dos Santos; “Terra em transe” (1967), de Glauber Rocha; “A marvada carne” (1985), de André Klotzel; “Edifício Master” (2002), de Eduardo Coutinho; “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça.

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