NOTÍCIAS

10/06/20 | Centro Cultural

Atriz do Grupo Galpão, do cinema e da TV fala sobre a importância da arte

A atriz Inês Peixoto, integrante do Grupo Galpão, é a personagem da semana da série Cultura em Pauta, produzida pela Assessoria de Comunicação do Minas Tênis ClubeDesde o início de sua formação artística, em 1981, Inês passou pelo Teatro Universitário, pelo Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado (CEFAR), até entrar para o Grupo Galpão, uma das mais importantes trupes teatrais do país, há 28 anos. “Entrei (no Grupo Galpão) para participar da montagem de Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Essa montagem foi um divisor de águas na trajetória do grupo e em nossas vidas. O espetáculo encantou o Brasil e o mundo. Fizemos duas temporadas no Globe Theater, em Londres, sob o olhar encantado dos ingleses”, lembra.

Inês percebeu, ainda criança, que seu caminho profissional estava no teatro e, por isso, afirma que a arte deveria ser ensinada nas escolas. “Numa montagem escolar, através da obra de Maria Clara Machado, eu pude confirmar a paixão à primeira vista que a arte de representar despertou em mim desde criança. Por isso, eu defendo o ensino de artes no currículo básico de toda escola, como ferramenta de sensibilização e descoberta do mundo”, explica a atriz.

Na entrevista a seguir, conheça um pouco da trajetória de uma das mais importantes artistas do teatro brasileiro, que defende a arte como ferramenta para a construção da história humana.  “A arte é a nossa capacidade de ir além da realidade. A arte constrói a identidade de um povo, é a expressão daqueles que compõem as diversas comunidades que habitam nosso planeta. É a construção de nossa memória, da nossa história, a expressão das nossas subjetividades”, afirma.

 Hoje é dia de Maria, série da TV GloboHoje é dia de Maria, série da TV Globo

 

Minas Tênis Clube – Seu primeiro contato com a arte foi por meio do teatro? Quando?

Inês Peixoto – A arte se manifesta na gente desde a primeira infância. Quando cantamos as primeiras cantigas, desenhamos nossos sentimentos, animamos nossos brinquedos em histórias inventadas, estamos produzindo arte. Sempre fui uma criança que gostava de inventar mundos. Mas, quando assisti teatro e cinema pela primeira vez, aos cinco anos de idade, eu me encantei por este universo de uma maneira tão forte, que decidi que era aquilo que eu queria ser e fazer. E na escola, aos 12 anos, eu tive a oportunidade de experimentar meu primeiro processo de criação no teatro. Numa montagem escolar, através da obra de Maria Clara Machado, eu pude confirmar a paixão à primeira vista que a arte de representar despertou em mim desde criança. Por isso eu defendo o ensino de artes no currículo básico de toda escola, como ferramenta de sensibilização e descoberta do mundo.

MTC – Quando entendeu o teatro como profissão?  Onde e como foi o seu estudo de teatro?

Inês – Entendi o teatro como profissão ao passar pelo TU – Teatro Universitário por um período, e depois concluir o curso de formação do CEFAR da Fundação Clóvis Salgado, em 1981. No CEFAR tínhamos um ano de curso e um ano de estágio chamado Arte na Escola, durante a gestão de Nestor Santana. Foi um período de amadurecimento, circulamos durante um ano por escolas de periferia de Belo Horizonte com um espetáculo produzido pela Fundação. Era um texto de João das Neves (1931-2018, diretor e dramaturgo fundador do Grupo Opinião e diretor do CPC da UNE no início da década de 1960), chamado “A Lenda do Vale da Lua”, com direção de Luiz Carlos Moreira. Tínhamos um salário, e podíamos usufruir de aulas de dança e outras atividades do centro de formação. Então, comecei a ser convidada por produções independentes, que ficavam em cartaz durante vários meses do ano. Naquela época, os espetáculos aconteciam de quarta a domingo, e ainda tínhamos peças infantis se apresentando no sábado de tarde e domingo em dois horários. Então, entendi que seria possível abraçar a profissão ARTISTA. Era uma escolha difícil, uma profissão que foi regulamentada em 1978, uma profissão caracterizada pela insegurança e nenhuma seguridade social. Mas, foi uma escolha verdadeira. A paixão nos move.  

MTC – Fale sobre a icônica banda “Veludo Cotelê”.

Inês – O Veludo Cotelê foi uma banda performática de repertório “brega”, que nasceu do espetáculo “No cais do Corpo”, texto de Walmir José e direção de Ricardo Batista. Era uma junção de música e teatro, que fez carreira se apresentando no Cabaré Mineiro e em palcos de todo o Brasil. O grupo criava clipes ao vivo a partir das músicas. Era uma loucura! Foi um período que tínhamos de preparar um show diferente para cada semana. A partir do roteiro, os músicos se dedicavam aos ensaios dos arranjos dançantes, os cantores às suas performances e eu e Amaziles Almeida às cenas que ilustravam as músicas. Nós fazíamos a criação das coreografias, dos figurinos e as caracterizações. Éramos as Veludetes. Essa dinâmica de criação acelerada nos deu muito timing de comédia e improviso. Foram anos excursionando, pesquisando profundamente a música romântica brasileira, e transformando tudo em um show divertido, kitsch e dançante.

MTC – Quais são as suas referências artísticas?

Inês – Nossa! Quanta gente me inspira… Vai ser difícil citar todos aqui. Um ator se inspira em outros atores, pintores, historiadores, escritores, músicos, cineastas, enfim… Sou muito agradecida por todas as obras que ampliam o meu olhar sobre o mundo. A inspiração brota de todos os lugares.  Laura Cardoso, Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Charles Chaplin, Grande Otelo, Nelson Rodrigues, Valter Hugo Mãe, Fellini, Chagall, Shakespeare, Joel Pommerat, Joaquin Phoenix, Heloísa Starling e Lílian Schwarcz, Mary Del Priore, Silvia Federici, Cacá Carvalho, Gabriel Villela, Paulo José, Krystian Lupa, Kleber Mendonça Filho, meus companheiros de Grupo Galpão, Luiz Fernando Carvalho, Rogério Gomes, Paulo de Moraes, Elza Cataldo, Ariane Mnouchikne, Antunes Filho, Zé Celso, Djanira, Portinari, Francois Truffaut, Billie Holiday, Bob Dylan, Ailton KrenaK, Ana Maria Gonçalves, Ana Miranda,Luiz Gonzaga, José Saramago, Virgínia Woolf, José Eduardo Agualusa, Maria Bethânia, Elza Soares, Mart’nália, Clara Nunes, Marion Cottilard, enfim…. Passaria o dia falando dos que me inspiram… 

MTC – Conte sobre a sua estreia no Grupo Galpão?

Inês – Foi um encontro lindo para a minha vida. Eu fui convidada para trabalhar com o Galpão depois de participar de alguns workshops ministrados pelo grupo, em 1992. Entrei para participar da montagem de Romeu e Julieta, William Shakespeare. Esta montagem foi um divisor de águas na trajetória do grupo e em nossas vidas. O espetáculo encantou o Brasil e o mundo. Fizemos duas temporadas no Globe Theater, em Londres, sob o olhar encantado dos ingleses. Assim, comecei minha história com o Galpão. Estou no grupo há quase 28 anos, uma vida juntos.  

MTC – Qual é o diferencial do Galpão para outros grupos de teatro?

Inês – O Galpão é um grupo formado por atores, sem a figura central de um diretor. Buscando a experimentação através da constante pesquisa de diversas linguagens, o grupo transita entre apresentações para rua e palco, mesclando o clássico com o popular, num movimento contínuo de diversificação no fazer teatral. O grupo tem um projeto sólido de memória através de registros escritos, musicais e audiovisuais sobre sua trajetória nas artes cênicas, e um projeto de formação através das ações do Galpão Cine-Horto, nosso centro cultural sediado na zona leste de Belo Horizonte. O grupo completa 38 anos de trabalhos ininterruptos em 2020.

MTC – Quantas peças você já apresentou com o Galpão? Qual considera a mais importante? Qual é a que mais gostou?

Inês – Eu participei de 13 espetáculos do grupo. “Romeu e Julieta”, “Rua da Amargura”, “Um Molière Imaginário”, “Um Trem Chamado Desejo”, “Partido”, “O Inspetor Geral”, “Um homem é um Homem”, “Pequenos Milagres”, “Till, a Saga de um Herói Torto”, “Eclipse”, “Os Gigantes da Montanha”, “Outros”, e o último “Quer Ver Escuta”, interrompido pela pandemia na beira da estreia.  Cada espetáculo me ofereceu a oportunidade de um novo mergulho, uma nova pesquisa, novos desafios. É uma construção. Tenho muito amor por todos. 

MTC – Fale sobre seus trabalhos além do Grupo Galpão

Inês – Tive experiências na TV e no cinema. Na televisão, atuei na minissérie “Hoje é Dia de Maria” e na novela “Meu Pedacinho de Chão”, com direção de Luiz Fernando Carvalho. Na série “A Cura”, com direção de Ricardo Waddington. Com Rogério Gomes, Papinha, trabalhei na série “A Teia” e nas novelas “Além do tempo” e “Sétimo Guardião”. No cinema, tive experiências com Elza Cataldo, Felipe Barcinsky, Ruy Guerra, Fábio Meira, Eduardo Coutinho, Zeca Ferreira, Cristiano Azzi, Rafael Conde, Pablo Lobato, Rodolfo Magalhães e Eduardo Moreira, Gilberto Scarpa, Armando Mendz, Marcos Berstein, Diogo Cronemberger, José Luiz Villamarin e Eduardo Nunes. São experiências preciosas para mim, todas elas.

 Inês Peixoto em cena - Foto de Clarisse LambertInês Peixoto em cena – Foto de Clarisse Lambert

MTC – Qual é a importância da arte para a sociedade, inclusive em momentos como este, de pandemia e isolamento social?

Inês – A arte é a nossa capacidade de ir além da realidade. A arte constrói a identidade de um povo, é a expressão daqueles que compõem as diversas comunidades que habitam nosso planeta. É a construção de nossa memória, da nossa história, a expressão das nossas subjetividades. Podemos fruir a arte e produzir arte. É uma manifestação de extrema importância para os seres humanos e para a sociedade. Um instrumento de conhecimento, sensibilização e posicionamento. Nesse momento pelo qual estamos passando, em que o confinamento social se fez obrigatório e necessário, o mundo parou.  Grande parte da população mundial está confinada há mais de 60 dias. Os que não podem ficar confinados, estão na linha de frente dessa guerra, para salvar vidas e manter os serviços básicos funcionando. As manifestações artísticas como música, livros, filmes, séries, peças de teatro filmadas, museus com visita virtual, lives de artistas, projetos de dança filmados, enfim, toda forma de arte, se fez mais presente do que nunca no cotidiano das pessoas. É uma possibilidade preciosa para nos ajudar a dar conta da triste realidade que estamos atravessando. 

MTC – Você pode dar dicas de livros e séries para assistir neste momento de isolamento social?

Inês – Sim! Eu gostaria de indicar o livro “A vida pela frente”, de Émile Ajar (pseudônimo de Romain Gary), “Apátridas”, de Alejandro Chacoff. Todos os documentários de Yann Arthus Bertrand, vários disponíveis no Youtube. Indico o filme do Grupo Galpão que ficará até o dia 14 de junho no site da Fundação Municipal de Cultura, “Éramos em Bando”, um documentário baseado em um processo criativo do grupo, interrompido pela pandemia. A série sueca disponível no Netflix, “Califado”. Muita adrenalina! Assisti a um filme na plataforma MUBI, chamado “Jantar com André”, de Louis Malle. Uma belíssima reflexão sobre a arte. Recomendo.

Outras Notícias

  • FLOR DO LÁCIO

    01/07/20 | Centro Cultural

    Nesta edição da série Cultura em Pauta, produzida pela Assessoria de Comunicação do Minas Tênis Clube, a língua portu...

    saiba mais
  • BEETHOVEN – 250 ANOS

    24/06/20 | Centro Cultural

    No ano em que se comemora os 250 anos de Beethoven, a série de entrevistas Cultura em Pauta, realizada pela assessori...

    saiba mais
desenvolvido por