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17/06/20 | Centro Cultural

CASAMENTO IMPROVÁVEL

O escritor mineiro Jacques Fux já conquistou vários prêmios de literatura em Manaus, Belo Horizonte, São Paulo e foi o  escolhido para representar o Brasil no maior evento literário do mundo, a Feira de Guadalajara, no México, que contou com o público de aproximadamente um milhão de pessoas. Matemático e mestre em computação, Jacques é admirador dos números, além de doutor e pós-doutor em Literatura Comparada.  “O pessoal das Ciências Exatas ou Duras, como se diz na França, são artistas, apesar de muitas vezes não saberem disso. Assim, almejando aumentar as minhas possibilidades artísticas e literárias, caminho como um intruso na Matemática. Dou aulas de Cálculo, Equações Diferenciais e Álgebra, mas sempre tentando motivar os alunos pelos grandes problemas e pelas possíveis relações com a Literatura”, diz Jacques que também é minastenista, frequentador assíduo das quadras de squash do Minas I e vice-campeão do Torneio Interno de Squash.

Com 12 livros escritos e oito publicados, dentre eles a série que conta com “Antiterapias”, “Brochadas”, “Meshugá: um romance sobre a loucura” e “Nobel” o autor tem como  inspirações a cultura judaica, apesar de não ser religioso, o argentino Jorge Luis Borges (1899 – 1986), o romancista francês Georges Perec (1936 – 1982), o irlandês Samuel Beckett (1906 – 1989), entre outros grandes nomes. Suas obras foram traduzidas para o italiano, espanhol e hebraico, e têm como característica a mistura da realidade e ficção que confunde o leitor e diverte o autor. “A ficção não é sinônimo de mentira. É, na verdade, um complemento da verdade. A busca pelo real impossível”, afirma o autor.

 

Minas Tênis Clube – Quantos livros você escreveu?

Jacques Fux – Já escrevi 12 livros e tenho oito publicados! Outros estão no prelo – essa pandemia atrasou tudo! O meu primeiro livro de crítica literária – “Literatura e Matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OULIPO” (Perspectiva, 2016) venceu o Prêmio Capes pela melhor tese do Brasil em Letras/Linguística e foi finalista do Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte. “Antiterapias” (Scriptum 2012 ,foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura; “Brochadas” (Rocco, 2015) conquistou o Prêmio Nacional Cidade de Belo Horizonte; “Meshugá: um romance sobre a loucura” (José Olympio, 2016) venceu o Prêmio Manaus de Literatura 2016; “Nobel” (José Olympio, 2018), “Georges Perec: a psicanálise nos jogos e traumas de uma criança de guerra” (Relicário, 2019), “O Enigma do Infinito” (Positivo, 2019), finalista do Prêmio Barco a Vapor,  e “Ménage Literário” (Relicário, 2018).

 

MTC – Fale sobre a sua formação acadêmica.

JF – Sou matemático, mestre em computação, doutor e pós-doutor em Literatura Comparada. Fui pesquisador na Universidade de Harvard por dois anos. Confusão, não é? Eu admiro profundamente a Matemática e os matemáticos. Os grandes problemas e as grandes soluções, apesar de difíceis e quase impossíveis de se entender, revelam poesia e arte. Para mim, o pessoal das Ciências Exatas ou Duras, como se diz na França, são artistas, apesar de muitas vezes não saberem disso. Assim, almejando aumentar as minhas possibilidades artísticas e literárias, caminho como um intruso na Matemática. Dou aulas de Cálculo, Equações Diferenciais e Álgebra, mas sempre tentando motivar os alunos pelos grandes problemas e pelas possíveis relações com a Literatura.

 

MTC – Sua tese de doutorado se tornou seu primeiro livro?

JF– Ao escrever minha tese de doutorado sobre Borges, Perec e a matemática, com todo meu encantamento e paixão, acabei recebendo o Prêmio Capes de Melhor Tese do Brasil em Letras/Linguística. Fiz uma pequena publicação dessa tese em 2011, mas a edição já está esgotada. Agora, em 2016, a Editora Perspectiva vai lançar uma versão revisada e ampliada da tese. Além de Perec e Borges, trabalho ainda com outros autores com pegada matemática: Lewis Carroll, Cervantes, Beckett, Ítalo Calvino, Roubaud, e os brasileiros Alberto Mussa e Osman Lins. Encantado por Jorge Luis Borges, e com sua matemática, lógica e ficção, fui atrás de outros escritores que também se utilizaram dos conceitos da matemática e da física para escrever. Fiz uma tese de doutorado e escrevi muitos artigos acadêmicos. Apesar de gostar, queria eu mesmo aplicar essas descobertas e constatações na minha literatura – e por isso me dediquei à ficção. A escrita ficcional é, mesmo que utilizemos regras e restrições, muito mais rica e sofisticada que a escrita acadêmica. Eu faço uso da teoria, mas constantemente a subverto e a contradigo, tudo isso como um recurso ficcional. E acho isso maravilhoso.

 

MTC – O que é literatura? A ficção é uma forma de ver a realidade?

JF – Não sei! É o que tento responder sempre, em todos os meus livros. A ficção não é sinônimo de mentira. É, na verdade, um complemento da verdade. A busca pelo real impossível.

MTC – Qual é a sua maior inspiração na literatura?

JF – A cultura judaica me inspira, pois a considero muito rica e lúdica. Gosto dos escritores com esse lado irônico, satírico e debochado, mas com rigor literário. Estou impregnado de judaísmo, de valores e conhecimentos judaicos, mas não sou religioso. Acho que isso é muito difícil de entender: ser judeu e não acreditar na religião. E acho que por isso julgo a minha formação rica; a possibilidade de conhecer muito sobre religião e valores judaicos sem ter fé, ou tendo uma “fé literária”.

 

MTC – A publicação “Antiterapias” é uma forma de terapia para o leitor? E para o escritor?

JF – A vida escrita, criada e lida são idealizações. Idealização da dor, do amor, da amizade, do sexo, da arte e das relações mais simples. Descobrir que você não é especial, que tudo que você sentiu ou sente, que tudo que você viveu, vive ou viverá é, basicamente, o que muitos vivem (ou que a literatura já contou) é uma Antiterapia. Assim, meu livro tenta colocar o personagem principal em uma possível sessão de análise, contando suas experiências idealizadas. O livro, como muito bem escreveu o jornalista João Paulo Cunha no Estado de Minas, é uma “autoanálise selvagem” e uma “erudição da sacanagem” que pode ser encontrada em todos nós. Tenho recebido muitos comentários sobre meu livro, dizendo justamente que as pessoas, por mais diferentes que são, descobrem-se personagens do livro, contando seus segredos mais íntimos. Este foi o livro que me lançou, pois ganhei um dos prêmios mais importantes de literatura do Brasil, o Prêmio São Paulo de Literatura.  Depois do prêmio, lancei mais três romances por grandes editoras e estou sempre dando cursos e palestras sobre minha literatura. Recentemente, fui um dos seis escritores escolhidos pelo Brasil para representá-lo na maior feira literária do mundo – A Feira de Guadalajara. Aproximadamente um milhão de pessoas passaram por lá.

 

MTC – De onde veio o tema para o livro “Brochadas”?

JF – Acho que falar sobre a ‘brochada’ é falar sobre a falha, a impotência, a imperfeição do ser humano. Em um mundo onde todos somos, ou aparentamos ser,  ‘heróis em tudo’, tocar nesse assunto é encarar de frente (e em riste?) um grande tabu. Assim, através de muitas pesquisas históricas e interdisciplinares, referências literárias e da construção minuciosa dos personagens, quis mostrar que esse ‘problema’ é enfrentado e discutido desde os primórdios. Encontramos relatos, poemas, prosas e textos sobre brochadas na mitologia, na medicina, na literatura, na psicanálise e também na religião. Mas, até então, ninguém teve coragem de se declarar publicamente brocha e escrever um grande ‘compêndio’ sobre o tema.  O livro nasce de um pé de página de Freud na obra “O Mal-Estar na Civilização”. Nessa passagem, Freud nos fala sobre a questão dos odores e de como, pelo fato de nos levantarmos e nos transformamos em seres bípedes, acabamos por recalcar o cheiro e privilegiar a atração pela “visão”. Daí surge a minha teoria dos desencontros – brochadas – já que na hora do sexo os cheiros irrompem. Não há como escondê-los e, portanto, se o cheiro não for atrativo não há o encontro. Essa ideia foi corroborada por artigos científicos publicados no início dos anos 2000. Outro aspecto que me chamou a atenção foi o fato de existir um mito sobre a hipersexualidade judaica. Se, como esse mito diz, é o povo que mais transa e mais é compulsivo sexual, logo, também, por raciocínio estatístico, tem que ser o povo que mais brocha. Esse livro, então, discute a história da sexualidade em Foucault, em Freud, em Bataille, no judaísmo e nas minhas “próprias” relações sexuais.

 

MTC – No livro Meshugá você aborda a loucura do povo judeu?

JF – Esse livro surge como uma continuação natural do Brochadas. Se lá resolvi dar um foco na questão da sexualidade, em Meshugá, decidi investigar a questão da loucura. Uma das teorias mais disseminadas era que a loucura estava diretamente relacionada à tara sexual judaica e também à ideia de o judeu ser um povo incestuoso. Fui atrás dessas teorias – absurdas – e pseudocientíficas e encontrei personagens e biografias “reais” para corroborar insanamente com essas suposições. O livro, portanto, decide entrar na mente dessas figuras “famosas” – Woody Allen, Bob Fischer, Ron Jeremy – e entender a loucura deles – ou nossa? A obra é delicadamente construída, e os momentos ficcionais são tão engendrados que chega a confundir o leitor, levando-o a acreditar que se trata de “biografias”, o que não é verdade. O narrador de Meshugá é tragado, numa espécie de efeito Zelig (síndrome da dependência ambiental), por esses personagens que acabam sustentando ou ilustrando mitos que pretendia derrubar. Todos os personagens de que fala e as teorias científicas que apresenta são/foram reais, mas com uma margem para apropriação e invenção. Esta é a beleza da ficção. Você pode se apropriar de fatos reais, biográficos e mentirosos, e misturar tudo, criar um grande amálgama que ninguém – nem o próprio autor – sabe ao certo o que é citação, intertexto, verdade ou ilusão. Dentro do domínio do texto, do livro, do pacto, tudo tem sua razão e sua autenticidade, mas não é necessário haver uma “comprovação”.  E, o que aconteceu de fato, foi que o narrador Jacques Fux, que aparece no primeiro e no último capítulos, acaba introjetando todas as histórias de seus personagens e enlouquecendo.

 

MTC – Quando lançou “Nobel”, sua última obra, houve a coincidência de vir a público “escândalos” envolvendo a premiação. Conte sobre a história do seu livro e sobre essa (in)feliz coincidência.

JF – Nobel é o fechamento de um projeto literário que se iniciou com o Antiterapias – em que anuncia um narrador em primeira pessoa com aspirações de ganhar o Nobel – passa pelo Brochadas – e a exposição e a ironia nua, crua e impotente de um jovem escritor – e chega em Meshugá – com exposição da loucura e do autoerotismo do narrador e de seus comparsas literários. Nesse projeto, alguns temas se repetem: a desconstrução do herói (ou a criação do anti-herói), a brincadeira com a autoficção e as suas inúmeras possibilidades e questionamentos, a loucura e a sexualidade exacerbada judaica (seus mitos e suas imposturas) e a cadeia intertextual de citações e autores. Em Antiterapias o narrador diz, ainda no primeiro capítulo: “A ideia do Nobel seria a visão que me desestabilizaria emocionalmente, como uma doce náusea, ainda bastante jovem. Deveria estar com tudo pronto para receber meu prêmio aos 33 anos. Mas a vida é cheia de obstáculos”. A questão é que essa ideia acabou sendo criada – e os livros conversam bastante. Eu tinha que ganhar o Nobel no Antiterapias e, de fato, o ganhei em 2018. O Nobel é o meu discurso de recebimento! Todos nós somos humanos, mesmos aqueles detentores de grande saber e de grandes honrarias, como é o caso do Nobel. O ser humano é esse misto de belezas e crueldades, de atos honrosos e outros vis e mesquinhos. O narrador do livro expõe e escancara esse lado literário e humano dos escritores (e dele próprio). Há essa vontade de mostrar que a loucura social é exatamente esse mundo raso de aparências e idolatrias. E que é um fenômeno humano, mas que está elevado à décima potência nesse mundo de redes sociais e demonstrações públicas de alegria.

 

MTC – Você pode dar dicas de livros?

JF – Uma noite, Markovitch, de Ayelet Gundar-Goshen (Ed. Todavia, 2019). O belo livro da escritora israelense Ayelet Gundar-Goshen se inicia na época do domínio inglês na Palestina e, por isso, o período da imigração ilegal dos judeus para a terra de sonho – muitos fugindo dos progroms (violentos ataques físicos da população em geral contra os judeus), outros sentindo o cheiro das cinzas que logo virão, alguns buscando o devaneio bíblico de Canãa. Além da história e dos conflitos internos e externos, a narrativa é recheada de sabores, odores – sensações e sentidos que saltam aos olhos e evocam o poder da palavra. O leitor é transportado para um mundo onírico de perfumes doces e frutados, de lembranças carinhosas, saudosas e traumáticas. O livro é um exímio estudo/escola do manusear da linguagem que desperta/irrompe o poder da essência e das percepções humanas. A narrativa nos conduz com brilhantismo para muito além dos apenas cinco sentidos que inutilmente nos classificam.

As pequenas virtudes, de Natalia Ginzburg (Ed. Cia das Letras, 2020). Partindo de relatos delicados e cruéis – como é o caso do texto “Ele e eu” -, com apuro literário que só os grandes romancistas dominam e buscando uma memória remodelada pelo passado, Natalia Ginzburg fala de si para traçar um relato da universalidade humana e da história de guerras e lutas. Ginzburg nos conta, com uma delicadeza ímpar, da figura forte de seu conhecido pai, Giuseppe Levi (professor de anatomia assinou o juramento de lealdade ao regime fascista imposto aos professores universitário), da prisão dos três irmãos durante o regime fascista, e da morte de seu primeiro marido, Leone Ginzburg, antifascista e intelectual.

Blues do fim dos tempos, de Ian McEwan (Ed. Âyiné). Em 2007, o renomado escritor Ian McEwan proferiu uma aula/palestra “apocalíptica” na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Agora, em 2019, ironicamente no momento em que o mundo encara, de fato, a possibilidade do fim dos tempos, a Editora Âyiné nos presenteia com esse texto apócrifo e desconcertante. O termo blues já nos oferece uma ideia do que nos espera nessa pequena obra de arte. Blue note é uma nota cantada ou tocada com um timbre ligeiramente mais baixo do que o da escala maior, o que faz com que a nota tenha um som distintivamente triste e melancólico; a própria palavra blues, em inglês, é sinônimo de melancolia. As origens do blues também estão intimamente relacionadas com a música religiosa da comunidade afro-americana, os spirituals. Blue também é a cor que sinestesicamente significa tristeza na cultura norte-americana, por isso surgiu o termo let’s sing our blues.

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