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05/07/17 | Centro Cultural

Delicadeza de Quintana?

A edição do “Letra em Cena. Como Ler…”, que retratou o gaúcho Mário Quintana, realizada no Centro Cultural Minas Tênis Clube, foi conduzida pelo escritor apresentador de TV, o também gaúcho Fabrício Carpinejar. Em uma fria noite de inverno, com clima bem característico do Rio Grande do Sul, o Café Cultural ficou lotado para ouvir as delicadezas (ou não) e as histórias da vida de Quintana

A primeira característica que Carpinejar apontou em Quintana foi sua falsa docilidade. “Quintana tinha uma fachada inofensiva, mas era ferino. Ele mantinha isso, colocava as palavras no diminutivo e reticências, falava com jeitinho, mas era sarcástico”, disse. Mesmo assim, ele foi um poeta amado. “Foi feita uma pesquisa na revista ‘Entrelinhas’ e deu que Quintana era o poeta mais popular”, contou. “Ele tinha uma crueldade, um veneninho para a amizade, por isso não fez poemas de amor nem sensuais”, afirma.

O fato de Quintana não ter tido casa ou família esteve presente em seu texto. “Sua poesia é de um turista em Porto Alegre, ele vivia em um esquecimento porque ele não arrumava a cama. A gente arrumar a cama é algo que nos prende, nos faz lembrar do lar, da casa”, diz Carpinejar. Quem ajudou Quintana a ter um lar para ficar foi o jogador de futebol da lendária seleção brasileira de 1982, Paulo Roberto Falcão. Quando Quintana escrevia para o jornal Correio do Povo, de onde tirava o seu sustento, o periódico faliu e o poeta perdeu a condição de pagar o quarto onde morava. O jogador cedeu um cômodo no Hotel Royal, de sua propriedade. Foi neste período que o autor disse a frase célebre: “Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas”. Segundo Carpinejar “O poema dele tem toda singeleza do abandono, ele não tinha pertencimento familiar”. A solidão era uma constante na vida de Quintana.

Outra característica importante na poesia de Quintana é a presença de morte e fantasmas. O fato de ter sido sozinho, não se casou e não teve filhos fazia com que a morte rondasse seus textos. “Aves da noite! Asas do horror! Voejai!/ Que a luz trêmula e triste como um ai,/A luz de um morto não se apaga nunca!” disse Quintana no soneto “A Rua dos Cataventos”, publicado no livro de mesmo nome em 1940.

Quintana era alcoólatra, fumante e foi resgatado da sarjeta. “Ele sentiu na pele o que era ser mendigo e se recuperou, parou de beber, mas não deixou o cigarro. Dizia que ‘fumar é uma forma suspirar’”, conta Carpinejar. Como Clarice Lispector, passou por incêndios provocados pelo fato de ter dormido com o cigarro aceso.

O poeta fez sonetos, quadras e canções e não seguia uma forma de literatura. “Quintana fazia poema sobre o poema e para festejar o poema. Usava muito a metalinguagem. Ele sempre foi o mesmo. Não tinha facetas como Drummond, por exemplo”, explicou Carpinejar. O poeta se candidatou algumas vezes para uma cadeira na Academia Brasileira de Letras mas nunca conseguiu se eleger porque nunca soube fazer campanha. “Quintana era cruel. Ele não sabia ser doce ou político. Uma vez ele ouviu de uma leitora a seguinte frase: ‘Eu gosto tanto daquele seu poeminha”. E ele logo respondeu: “Eu gostei de sua opiniãozinha’. Ou seja, ela não saberia nunca fazer lobby para uma vaga em lugar nenhum”, afirma.

O fato de Quintana não ter pertencimento familiar fazia dele uma pessoa sem posses. “O poeta doava o que de melhor ele tinha, sua poesia. Para Quintana o poema é doação”, conclui Carpinejar.

A próxima edição do projeto Letra em Cena. Como ler…, no dia 9 de agosto, quarta-feira, às 19h, será dedicado aos versos de Clarice Lispector sob o olhar e análise da professora Nádia Battella Gotlib. A leitura dos textos de Clarice será feita pela atriz Christiane Antuña. As inscrições já podem ser feitas, gratuitamente, no site da Sympla.

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