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03/07/19 | Centro Cultural

Dor compartilhada – Letra em Cena mostrou as dores de Carolina Maria de Jesus

A escritora mineira Carolina Maria de Jesus foi a focalizada da quarta sessão do programa literário do Minas Tênis Clube, “Letra em cena. Como ler…”. Elzira Divina Perpétua, professora de literatura da UFOP,  que fez seu doutoramento em Carolina de Jesus e escreveu a publicação de “A vida escrita de Carolina Maria de Jesus”, explicou a importância da escritora da favela do Canindé, São Paulo, para a literatura nacional e para o entendimento sociológico de um determinado grupo da sociedade. A atriz Carlandréia Ribeiro fez uma interpretação de Carolina de Jesus.

Carolina de Jesus escreveu, além do importante diário “Quarto de Despejo – Diário de uma favelada”, contos, poesias, peças de teatro e música. A escritora estava esquecida, até que foi tema de vestibular. “Em 2000, o livro ‘Quarto de despejo’ foi uma das publicações solicitadas para a prova do vestibular da UFMG. Desde então ela ficou mais conhecida”, explicou Elzira. A palestrante afirmou que a obra de Carolina é muito impactante. “Ninguém saí ileso depois de ler Carolina, tamanha a emoção da dor compartilhada por ela”, afirma.

Com apenas dois anos de estudos formais, Carolina de Jesus é quase analfabeta, mas a sua escrita é também muito interessante do ponto de vista literário, segundo Elzira. Carolina achava que a literatura devia sempre falar de algo bonito. Por isso ela colocava nos seus textos certo cuidado com a língua e a forma. “Ela parou de estudar para ir cuidar da lavou. Sua família mudou de Sacramento para a área rural da cidade. Carolina não dominava a gramática mas tinha grande preocupação com as palavras e em escrever o português que ela julgava ser ‘chique’”, observa.

Lançado em 1960, de acordo com Elzira,  o livro não foi censurado mas teve uma diminuição de sua venda durante o regime militar. “A publicação causou muito impacto coletivamente e socialmente pelo que contava. Neste período, as pessoas já estavam questionando a política no país e o livro vinha de encontro com essas ideias. Na verdade, ‘Quarto de despejo’ nunca foi censurado, mas a sua procura durante o período mais rígido da ditadura, diminuiu”, conta a palestrante.

Um fato curioso sobre o livro é que ele foi traduzido para 13 idiomas, incluindo o japonês e, de acordo com a palestrante, houve dificuldade na interpretação do nome da obra em algumas línguas. “Alguns tentaram traduzir o termo quarto de despejo para sótão. Mas não é a mesma coisa. Carolina deixa claro no livro que a favela é o quarto de despejo da cidade e o que está lá é descartável. Sendo assim, não é um sótão”, explica.

A próxima sessão do Letra em Cena. Como ler…, no dia 6 de agosto, às 19h, será dedicado à poesia do curitibano Paulo Lemisnki sob o olhar de Tarso de Melo, poeta, crítico e editor paulista.. No Café do Centro Cultural Minas Tênis Clube, às 19h, com entrada franca (inscrições em breve).

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