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01/07/20 | Centro Cultural

FLOR DO LÁCIO

Nesta edição da série Cultura em Pauta, produzida pela Assessoria de Comunicação do Minas Tênis Clube, a língua portuguesa, descrita por Olavo Bilac (1865-1918), como a “última flor do lácio”, é o tema da entrevista com  o escritor gaúcho Carlos Nejar, 81 anos, ocupante da cadeira nº 4 da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Autor de poemas, novelas, romances e livros infanto-juvenis, Carlos Nejar, discorda de Olavo Bilac, que escreveu ser a língua portuguesa rude e dolorosa. “A rudeza pode vir de quem não sabe tratar a língua e a dor é de quem não a conhece na beleza e honra de sua fala”, defende o acadêmico gaúcho, que é pai do jornalista e também poeta Fabrício Carpinejar.

Para Carlos Nejar, a língua “forja a identidade, ou o rosto verbal, de pensamento e sonho de um povo, a sua sociedade e o destino de grandeza”. Ele afirma, ainda, que a língua portuguesa tem sido maltratada, assegura que a leitura constante pode ajudar e sugere vários livros que podem ajudar as pessoas a conhecer melhor a língua portuguesa.

 

MTC – Qual é a importância da língua para uma sociedade?

Carlos Nejar – A importância da língua é a da alma para o corpo. Forja a identidade, ou o rosto verbal, de pensamento e sonho de um povo, a sua sociedade e o destino de grandeza. Bem como a forma de  comunicação na fala e na escrita. Respeitando e modelando a tradição dos ancestrais.

MTC – A língua é viva? Como se percebe essa vitalidade?

CN – Sim, a língua é viva, porque traz o sopro dos que estão vivos. Ou mesmo dos mortos, pela escrita, onde o espírito continua soprando.

MTC – O senhor acha que a língua portuguesa vem sendo maltratada?

CN – Sim, vem sendo maltratada. Por exemplo, em certa ignorância que chamo de doutoral, do tipo de especialista que, ao saber da ciência, julga não precisar do sabor e sabedoria da língua.

MTC – A leitura constante ajuda as pessoas a tratarem melhor a língua portuguesa?

CN – Sim, a leitura ajuda, orienta, dá possibilidade de comparação, modela, como o curso do rio conforma a água.

MTC – Escritores da chamada nova geração escrevem como falam, sem seguir as normas gramaticais. Qual a opinião do senhor sobre isso?

CN – Não entro no mérito. Não se precisa inventar o que já existe. Por mim, sigo e admiro a norma. Aliás, é mais difícil inventar dentro da língua, do que fora dela.

 

MTC – “Amo-te, ó rude e doloroso idioma (…)”. Último verso do segundo terceto do soneto de Olavo Bilac, intitulado “Língua Portuguesa”. O senhor concorda com o Bilac que o português é rude e doloroso?

CN – Discordo de Bilac. O idioma é ato de amor, portanto, não é nem rude, nem doloroso. A rudeza pode vir de quem não sabe tratar a língua e a dor é de quem não a conhece na beleza e honra de sua fala. A alma da língua reina, quando se aperfeiçoa e se expande. É alma geral.

 

MTC – Qual é a importância de ser um imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) e saber ser um representante e defensor da língua pátria?

CN – Sim, é “glória que eleva, honra e consola,” como observou o fundador da Academia, Machado de Assis. Honra por estarmos com aprofundado amor na palavra, tendo consolo de estreitá-la nos sonhos, junto à elevada memória dos que nos antecederam e sucederão.

 

MTC – Quais são as leituras essenciais para se conhecer de forma melhor língua portuguesa?

CN – “Ler é indagar “, como observava Kafka. Ou melhor, é entrar na terra do coração, imaginando junto, “pensar sentindo”. São tantos os autores, que nos modelam: Machado,  Pe. Antônio Vieira, Eça de Queiroz, Luiz Vaz de Camões , Fernando Pessoa,  Carlos Drummond, Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Rachel de Queiroz, João Ubaldo, Ana Maria Machado, Lygia Fagundes Telles,  Moacyr Scliar, Nélida Piñon, Antônio Torres.. e por que não? – João Cabral, que completa cem anos de nascimento, entre outros, de nossa língua comum.

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