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03/06/20 | Centro Cultural

GRUPO CORPO Uma das mais importantes companhias de dança do mundo é mineira e celebra 45 anos

O Grupo Corpo fez sua estreia, em 1976, quando dançou “Maria Maria”, espetáculo coreografado pelo argentino Oscar Araiz, com argumento de Fernando Brant e música de Milton Nascimento. Criado em 1975, o grupo tem no repertório 40 espetáculos e se tornou uma das mais respeitadas companhias de dança do mundo.  A maior parte das coreografias é de Rodrigo Pederneiras, mas os 22 bailarinos do Corpo já dançaram sob a batuta de Oscar Araiz, Susanne Linke e Cassi Abranches.

Abordando dessa trajetória de sucesso, a terceira entrevista da série Cultura em pauta traz Paulo Pederneiras, fundador do Corpo, que também atuou na elaboração do projetos da Galeria do Centro Cultural Minas Tênis Clube.  “Eu fiz o projeto da Galeria de Arte junto do Fernando Maculan (arquiteto). O Pedro (Pederneiras) fez a parte técnica do Teatro do Minas. Sempre tivemos uma ligação muito forte com o Minas”, disse. 

Minas Tênis Clube – Como surgiu a ideia da criação do Grupo Corpo?

Paulo Pederneiras – Nossa, faz tanto tempo… Isso foi em 1975. Na verdade existia um grupo de pessoas que queriam levar a dança de uma maneira profissional, se dedicar totalmente a dança. E eu participada desse grupo e foi assim que surgiu. Na minha família tinha uns irmãos que já participavam de um grupo que se chamava “Trans-forma”, da Marilene Martins, um trabalho muito bonito e interessante e eu, aos poucos também me aproximei desse grupo, e a partir daí foi se formando. Teve um Festival de Inverno em Ouro Preto, em 1973, que veio a turma do coreógrafo Oscar Araiz, de Buenos Aires, e aí formou um grupo com as pessoas que foram fazer esse curso e a partir daí, passamos a ter mais contato com as pessoas de Buenos Aires e eles eram uma companhia profissional e nós resolvemos fazer uma companhia profissional também aqui. Fundamos então o Grupo Corpo. A sede primeira foi na casa dos meus pais. Eles saíram de casa e a gente fez uma reforma.

 BACH,1996. Coreografia de Rodrigo Pederneiras e música de Marco Antônio Guimarães - Foto: José Luiz PederneirasBACH,1996. Coreografia de Rodrigo Pederneiras e música de Marco Antônio Guimarães – Foto: José Luiz Pederneiras

 

MTC – Quando e como foi a estreia do Grupo Corpo?

PP – A primeira produção, que foi em 1976, foi “Maria, Maria”. Que já era bastante pretensiosa, não sei se posso dizer isso, porque, enfim, já era uma coisa muito profissional. Chamamos primeiro Fernando Brant, que foi quem fez o roteiro, em seguida, Milton Nascimento. E depois Oscar Araiz veio de Buenos Aires para fazer a coreografia. Nessa época todos as outras pessoas da área de criação vieram de Buenos Aires também. Todas as pessoas da área de figurino, de cenografia, de iluminação, sabe? Então, “Maria, Maria” realmente foi quase que um divisor de águas. Eu acho que não é nenhuma presunção dizer, na dança brasileira, que esse espetáculo foi a primeira vez que a dança atinge um nível mais popular, onde mais pessoas, não só da área da dança especificamente, que era o público que acontecia no Brasil, mas um público muito mais amplo compareceu ao teatro para assistir. E a partir daí a gente começou a construir uma nova sede, a sede definitiva do Corpo até hoje. E até que mais pra frente a gente repete essa mesma turma com o “Último trem” (espetáculo de 1980). E aí, a partir de então o Rodrigo, que até o momento era só um bailarino da companhia, começa a fazer as coreografias para o Grupo Corpo.

 

MTC – O que representou Rodrigo Pederneiras assumir o papel de coreógrafo do Grupo Corpo?

PP – E aí é uma guinada muito forte, o que levou certo tempo para o reconhecimento. E isso acontece com já lá frente com “Prelúdios” (espetáculo de 1985), que é uma obra em cima dos 24 prelúdios de Chopin, e aí esse espetáculo realmente teve uma boa recepção, principalmente da crítica, e a partir desse momento o Corpo começa a procurar naturalmente uma linguagem própria porque até então toda parte de criação vinha de fora, era importada. Aí já começa a formar um núcleo que é o Rodrigo como coreógrafo, Freusa Zechmeister como figurinista, Fernando Veloso como cenógrafo, e eu fazia a parte de iluminação, projeto de luz, e direção. 

MTC – Quais obras do Grupo Corpo você destaca?

PP – Um marco que posso dizer é 1989, quando o Corpo faz “Missa do Orfanato”, espetáculo com música de Mozart. É a primeira vez que o Corpo consegue um patrocínio de manutenção para todas as suas atividades. Então a gente já começa os espetáculos com mais cenografia, já começa a investir mais na produção dos espetáculos. E daí vêm outros marcos que eu posso dizer como “21”, com música de Marco Antônio Guimarães, do Uakiti, que eu acho que é onde se define o caminho estético pro Grupo Corpo. Daí para frente, as coreografias, quase todas, continuam no repertório do Grupo Corpo. E a gente começa a fazer novamente a encomenda das trilhas sonoras. E aí vem desde, João Bosco (Benguelê – 1998), Arnaldo Antunes (O Corpo – 2000), Lenine (Breu – 2007 e Triz -2013), Samuel Rosa (Suíte Branca – 2015), José Miguel Wisnik (Nazareth – 1993, Parabelo – 1997, Onqotô – 2005, Sem mim – 2011), Caetano (Onqotô – 2005), Tom Zé (Parabelo – 1997), o trio Kassin, Domênico, Moreno (Ímã – 2009), essa turma toda, né? Aí o Corpo começa a ter uma estética mais definida, no sentido de que é reconhecida a linguagem do Grupo Corpo, e eu posso dizer no mundo todo. Porque o Corpo, a partir daí começa a se apresentar mais fora do Brasil. E até mais fora do que aqui. Até com “Maria, Maria”, o Corpo teve a oportunidade de apresentar bastante fora do Brasil, o que de uma certa forma acelerou o nosso aprendizado tanto técnico quanto o artístico, né? Porque “Maria, Maria” viajou por 14 países, fazendo turnês longas, e aí a gente retorna depois de “Missa do Orfanato” e “21”, a esse cenário internacional e o Corpo então firma ou confirma a sua estética singular.

 

 

 

MTC – Fale-nos um pouco sobre a identidade do Grupo Corpo.

PP – A gente pode falar que a estética coreográfica do Corpo é singular sim. A maneira de se movimentar do Grupo Corpo é realmente uma linguagem que o Rodrigo desenvolveu a partir de “Missa do Orfanato”. Agora quando eu falo a estética, eu falo em todos os sentidos, né? Porque o espetáculo tem muitas ouras coisas além da dança, ele é completo e tudo tem o seu valor. O figurino, o cenário, a luz, a parte gráfica, tudo isso é muito importante. Pra gente cada detalhe é muito importante e não é só detalhe, faz parte mesmo da obra.

MTC – A forma de dançar do Grupo Corpo é singular É possível qualquer bailarino do mundo dançar com o Corpo? Há a ideia de criar uma metodologia?

PP – Acho possível sim. Outras pessoas no mundo podem dançar como os bailarinos do Corpo. Sempre fica como um sonho, mas nunca aconteceu, infelizmente. Seria legal ter uma metodologia. Isso a gente sempre pensa em fazer. Mas ainda não deu.

MTC  Sobre as trilhas sonoras, como é feita a escolha dos músicos?  

PP – Não sei como vem o compositor. Os últimos eu tenho escolhido. Vamos conversando entre a gente e decidimos. Sempre são compositores que temos grande admiração. Não existe um método de escolha. Alguns a gente participa um pouco mais na composição e a relação é sempre muito boa. Acredito que também para eles é uma forma diferente de compor. Porque não tem a obrigação de canções, de ter três minutos para tocar em rádio. Mas precisa ter fôlego porque são obras em torno de 40 minutos e eles têm liberdade total. Mas pedimos para eles considerarem algumas coisas. Por exemplo, não pode ser uma mesma dinâmica, tem que ter lugares de respiro, porque em todos os espetáculos usamos todos os bailarinos (atualmente o Grupo Corpo conta com 22 bailarinos), o Corpo não tem essa coisa de primeiro bailarino. Você tem que ter a dinâmica para que o grupo chegue até o fim da obra. Tem vários aspectos que devem ser respeitados. Mas cada um trabalha do seu jeito.

MTC – Qual a característica das trilhas sonoras compostas para o Corpo?

 PP – Não tem uma trilha do Corpo que se pareça com a outra. Por exemplo, no caso do Arnaldo Antunes, tem um tema que ele elegeu, que foi o corpo. No caso do pessoal do Metá Metá, eles que propuseram o tema do candomblé. Então isso é ótimo, eles propõem a ideia. A gente não dá nenhuma indicação, o pedido é o que eles quiserem fazer. São obras diferentes do que o compositor normalmente faz.  Lenine fala muito isso, que a partir do momento que ele fez Breu (2007), influenciou demais na maneira dele compor. Outra coisa interessante, é a reação dos compositores quando assistem o espetáculo. Com certeza eles imaginam alguma coisa, mas quando assistem a surpresa é muito grande. É outra maneira de ver a música.

 PARABELO, 1997. Coreografia de Rodrigo Pederneiras e música de Tom Zé e Zé Miguel Wisnik. Foto de José Luiz PederneirasPARABELO, 1997. Coreografia de Rodrigo Pederneiras e música de Tom Zé e Zé Miguel Wisnik. Foto de José Luiz Pederneiras

 

MTC – Você tem uma peça preferida do Grupo Corpo?

PP – Eu tenho um dos espetáculos preferidos por tudo que significou para o Grupo Corpo, como uma guinada, como exigências estéticas, na maneira mais ampla do termo, o “21”. Mas é muito difícil eleger. Eles são muitos distintos. Falo o “21” porque foi o que mais exigiu da gente.

MTC – De onde vem a inspiração do Grupo Corpo?

PP – Nossa Senhora… O nosso ponto parte da música. No nosso caso começa na música. Mas vem de todos os sentimentos e no que está em volta da gente.

MTC – O Grupo Corpo celebra 45 anos em 2020. O que estava planejado para comemorar a data histórica?

Paulo – Normalmente o Corpo faz uma obra nova a cada dois anos, por causa dos compromissos. Antigamente a gente fazia uma por ano, depois com os compromissos que o Corpo teve esses anos todos ficou mais difícil ter esse tempo para criar um espetáculo. Esse ano não teria uma nova criação, porque ano passado estreamos “Gil”. Então, para essa comemoração nós pensamos em fazer um tipo de retrospectiva, sabe? De alguns balés, dando oportunidade para o público e para os bailarinos de alguma forma. Seriam seis balés, com programas diferentes numa mesma temporada. Chegamos a fazer reservas em todos os teatros e, além disso, tinha um projeto que foi um convite da Orquestra Filarmônica de Los Angeles, que é uma das mais conceituadas dos EUA, depois da entrada do maestro venezuelano Gustavo Dudamel. E aí ele convidou o Grupo Corpo para fazer uma peça do compositor argentino Alberto Ginastera, contemporâneo a Villa-Lobos. A apresentação seria na sede deles, no Walt Disney Concert Hall. Mas tudo ficou no ar com essa loucura toda. A gente também faria apresentações gratuitas no Palácio das Artes na celebração dos 45 anos do Grupo Corpo, além da nossa temporada normal. A gente tinha uma temporada na França que já foi cancelada. Tá todo mundo com essa cara de: “meu Deus o que é isso?” E tentando fazer alguma coisa. O Corpo começou a fazer umas aulas para o pessoal da linha de frente da saúde, aula de relaxamento e tudo. E estamos tentando atuar um pouco mais nessas mídias (sociais) todas.

 

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