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27/05/20 | Centro Cultural

OS 55 ANOS DA ERA DOS FESTIVAIS

Ricardo Frei, pesquisador, cantor, produtor musical, mestre em História pela UFMG, doutor em Música pela Unicamp e professor dos cursos de jornalismo e publicidade da Faculdade Promove é o segundo entrevistado da série Cultura em Pauta, produzida pela Assessoria de Comunicação do Minas Tênis Clube. Ele aborda os Festivais da Canção que estão completando 55 anos e representam um marco na história da cultura nacional. “A década de 1960 foi um período de consolidação da TV brasileira. Foi momento importante também para o desenvolvimento do mercado fonográfico no país. As TVs, buscando a melhor forma de organizarem sua programação ainda emulavam o rádio”, explica.

Professor Ricardo Frei explica sobre a Era dos FestivaisProfessor Ricardo Frei explica sobre a Era dos Festivais

A “Era dos Festivais”, nos anos 1960, se destacou num período político e cultural efervescente  no país, e as canções se tornaram narradoras dos fatos. Ações extremas, como a Marcha contra a Guitarra Elétrica, encabeçada por Elis Regina, em julho de 1967, colocou na rua músicos da MPB contra a invasão do estrangeirismo na música nacional. “Em tempos de polarização política e cultural, o diálogo com traços culturais fora daquela matriz encenada e comungada no Opinião (grupo carioca que fazia, nos anos 1960, o teatro de protesto, por meio de estudos e difusão da dramaturgia nacional e popular) eram quase que automaticamente relacionados a uma posição de desvalorização da nossa própria cultura. Roberto Carlos em seu programa Jovem Guarda era tomado como a representação do estrangeirismo acrítico”, explica Ricardo.

A primeira campeã dos Festivais foi a canção “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, interpretada por Elis Regina. Nos Festivais foram lançados para o país e o mundo artistas que até hoje são sucesso. “Não haverá surpresa na lista a seguir: Edu Lobo, Elis Regina, Jair Rodrigues, Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Guarabira, Tony Tornado, Milton Nascimento, Marília Medalha, Nara Leão, Sérgio Ricardo, Mutantes, MPB4, Tom Zé, Erlon Chaves, Jorge Bem, para ficar nos que impactaram os anos 1960. Deixei de fora nomes como Paulinho da Viola e Roberto Carlos, por entender que construíram seus ‘cartazes’ num outro reduto, embora tenham participado e, inclusive, ganhado alguma edição de um festival (Paulinho da Viola ganhou em 1969 com a canção Sinal Fechado)”, lembra o professor.

MTC – O que foi a Era dos Festivais? Quanto tempo durou? E em quantas emissoras foram realizados os concursos?

Ricardo Frei – A década de 1960 foi um período de consolidação da TV brasileira. Momento importante também para o desenvolvimento do mercado fonográfico no país. As TVs, buscando a melhor forma de organizarem sua programação ainda emulavam o rádio, buscaram patrocinadores para garantir a produção e veiculação de atrações diversas. Num primeiro momento, não se tinha a possibilidade do uso do VT e as transmissões televisivas exigiam uma concatenação de ações muitas vezes na base da tentativa e erro. O primeiro certame, pautado por uma concorrência musical ocorreu em 1960, circulou por algumas cidades do país e realizou a finalíssima no Guarujá, São Paulo. O concurso foi promovido pela TV Excelsior e teve muitos problemas técnicos e estratégicos de exibição. Só cinco anos mais tarde, já em 1965, foi encontrado um formato e uma plateia disposta a continuar o processo de substituição de importação cultural iniciado com a Bossa Nova: naquele momento, instigado por um clima político tenso, fruto do golpe civil-militar de 1964, as artes/artistas de tez nacionalistas, combativos, capazes de revelar um ethos nacional colocavam-se em consonância com uma fatia de público específico que levou aquelas batalhas cancionais para a arena político-cultural de resistência e de reinvenção da canção popular brasileira. O palco de tudo isso foi o festival de música, que se multiplicou atravessando os anos daquela década, anunciando e ressignificando a cultura musical popular brasileira, atendendo uma demanda do novo meio de comunicação que se consolidava, tal como de uma audiência que a um só passo redescobria a canção brasileira como arte e espetáculo, mas também a reconhecia como reduto importante, como canal vital para se dizer das coisas vividas em tempos repressivos. Por tanto, a Era dos Festivais compreende tais certames que foram realizados principalmente entre os anos de 1965 e 1969. É bem verdade que tivemos festivais na década de 1970 e 1980, mas entendo que a fase que pode ser determinada como “Era” é aquela que compreende os festivais de 1965, 1966, 1967, 1968 e, com alguma condescendência, 1969 e 1970, promovidos especificamente pelas TVs Excelsior, Record, TV-Rio / Globo. 

 

MTC – Qual é a importância desse período para a música nacional e para a inserção da música nacional no mundo?

Ricardo – Foi um momento de consolidação da substituição de importação que a Bossa Nova (BN) realizou, trazendo exatamente num momento de desenvolvimento da indústria fonográfica o produto nacional para o centro da questão. Foi ali que forjou, primeiramente, o conceito de MPB, que fora da Era dos Festivais se tornou uma etiqueta com uma semântica errática, um balizador ora qualitativo, ora segregador. Ali surgiu o que foi chamado de moderna música popular brasileira, e os seus principais cartazes puxaram/alavancaram o mercado fonográfico. Influenciados tanto pela BN, pelas manifestações regionais, pela cultura popular urbana, surgiu uma geração que teve amplo acesso ao mercado externo entregando ao mundo uma produção artística bem acabada, exatamente quando o mercado se consolida e passa a tratar aqueles certames como incubadora de personas artísticas capazes de impactar o mercado.  Para além disso, precisamos lembrar que os festivais da canção da TV Rio/ Globo contava com uma fase nacional e outra internacional, promovendo o intercambio cultural e abrindo portas para que o mundo escutasse as canções da já, naquela altura, consagrada MPB.

 

MTC – O concurso promoveu o surgimento de outros movimentos musicais?

Ricardo – Não costumo organizar as produções artísticas daqueles tempos sob alguma etiqueta de movimento. Nem mesmo a Tropicália, que percebo mais como uma espécie de movimentação. Todavia, podemos identificar um grupo de artistas que se voltaram para a recuperação de uma certa narrativa cancional que olhava para a época de ouro da canção brasileira, outra que se baseava mais numa mistura estética e conceitual do que numa triagem (para citar Luiz Tatit – músico e linguista), que é o caso da Tropicália. Há aqueles que se mantiveram num lugar de produção de canções com finalidades abertamente estético-políticas. Foi em decorrência das manifestações da década de 1960 que surgiram, por exemplo, o Clube da Esquina ou o Pessoal do Ceará (que acontecem de fato já nos anos 1970). Na minha opinião, o que os festivais conseguiram entregar (em termos de “movimentos”) mais importante e contundente foi, de fato, aquilo que chamamos Tropicália. Em minha tese de doutorado, quando analiso gestualidades vocais de cantores contemporâneos da canção popular, fica claro que o signo tropicalista ainda hoje é o traço mais evidente e importante para a compreensão da produção artística. A Tropicália abre as portas para a década de 1970 se transformar numa das mais polifônicas da história da música popular. Um lugar onde estilos, vozes e perspectivas se reuniram sob a sigla MPB, que àquela altura já significava outra coisa.

 

 Alegria, Alegria, canção de Caetano Veloso no Festival de 1967

MTC – Explique o que é MPB?

Ricardo – Os festivais anunciavam concursos voltado para canções da Moderna Música Popular Brasileira (MMPB). Foi do uso frequente do termo, principalmente por parte da mídia, que se legitimou a ideia de MPB. No início, a sigla acompanhava aquelas produções que não transigiam com o universo do rock, da música pop, ou de estrangeirismos mal vistos num momento de polarização política. Aquelas canções que remetiam aos insumos criativos próprios de algum regionalismo, de uma cultura destacadamente popular ou que remetia à uma fase pregressa da história da canção popular (Época de Ouro, doa anos 1930 até 1950) “cabiam” na etiqueta. Todavia, dali em diante a sigla se tornou uma espécie de palavra-valise onde tudo cabe. Quando isso acontece, quando tudo pode ser categorizado como MPB, a força de significação da sigla se perde. De fato, até hoje temos a MPB como uma espécie de agente importante na organização da cena da música popular, mas na década de 1970 já não recrutava as mesmas significações que portava antes. Teríamos que fazer um artigo extenso para falar apenas das mutações dessa sigla, contudo, de maneira sintética, mas também redutora, podemos dizer que dali em diante MPB serviu mais como uma espécie de filtro estético, medidor de uma suposta qualidade, e como organizador de mercado. Hoje mesmo, demonstro isso em minha tese, a MPB funciona como uma das principais tags produtoras de vinculações mercadológicas das plataformas de streaming como a Apple Music, por exemplo.

 Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim, e a grande vaia, no Festival de 1968

MTC – A partir de 1969, houve uma mudança no formato das canções inscritas nos festivais? Os compositores tinham truques para ganhar o Festival?

Ricardo – Eu não entendo assim. Temáticas próprias e afinadas com o Zeitgeist específico daquele reduto, somadas a uma valorização do aspecto nacional-popular, e um modo de dizer que soa pela voz que canta são as marcas daquelas canções. Muito se fala na desdobrada como um recurso marcante das canções vencedoras nos primeiros festivais. Não entendo como truque, sabe?! Tantas outras não recorreram ao recurso e tiveram uma história também marcante nos festivais. O que marca as canções pós-Bossa Nova é a oralidade, a presença da fala no interior da voz que canta. Isso é mais determinante do que qualquer aspecto específico do arranjo. Perceba que a capacidade de dizer de “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, comunicou, arregimentou muito mais afetos do que, pasmem, “Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim.

  Elis Regina defende Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes no Festival de 1965 e apresenta a desdobrada

MTC – Houve um embate importante no Festival de 1967 entre a tradicional música brasileira e o iê-iê-iê. Fale sobre essa “briga” na história da música nacional.

Ricardo – Basicamente, trata-se da discussão levada a termo entre uma canção, uma arte, que se atenta para a temática, para os personagens ligados a um cultura nacional-popular (o termo é controverso, mas serve aqui.) e aquela que transige com culturas externas. Em tempos de polarização político-cultural, o diálogo com traços culturais fora daquela matriz encenada e comungada no Opinião (grupo carioca que centraliza, nos anos 1960, o teatro de protesto e de resistência, por meio de estudos e difusão da dramaturgia nacional e popular) eram quase que automaticamente relacionados a uma posição de desvalorização da nossa própria cultura (e ao entreguismo político). Roberto Carlos em seu programa Jovem Guarda (1965 – 1968) era tomado como a própria representação do estrangeirismo acrítico. Já Elis e Jair, ambos comandando o Fino da Bossa (1965 – 1967), foram tomados como representantes da arte considerada “de fato” brasileira. Tal embate também foi levado para o campo dos festivais. E isso deu o tom da disputa até que a Tropicália (e o seu processo de mistura) despolarizou a discussão, mostrando a complexidade das coisas da cultura, ativadas por uma perspectiva oswaldiana, antropofágica, desnudando o simplismo do posicionamento dual.

MTC – Qual edição do Festival você aponta como a mais emblemática?

Ricardo – Certamente, o festival de 1967 da Record teve muita importância para época e pavimentação do que viria a acontecer depois. Mostrou outros caminhos para a canção popular, apresentou a proposta tropicalista e descortinou os limites estéticos e políticos da MPB.

Ponteio, de Edu Lobo e José Carlos Capinan, canção vencedora do Festival de 1967

MTC – Para além dos festivais, a movimentação da música naquele período era muito intensa. Havia programas de TV que se pautavam pelas canções e compositores. Fale um pouco sobre esses programas e as canções que produziam e apresentavam.

Ricardo – Os programas de TV funcionavam como a antessala dos festivais. Era ali também que se construíam as posturas, os cartazes e o fomento à indústria fonográfica. Ali estava o passado, o presente e o aceno para um movimento futuro de produção musical. As canções, dada sua capacidade de dizer, de comunicar, ocupavam o lugar de principal produto cultural. Portadora de vozes, tinha capacidade de levar e dar recados, todos potencializados pela estratégia televisiva, que ganhava importância e alguma capilaridade entre a parcela formadora de opinião e consumidora de produtos culturais massivos.

 

MTC – Você pode nos dar dicas de livros para conhecer a Era dos Festivais?

  • A Era dos Festivais (Zuza H.)
  • Prepare o seu coração (Solano Ribeiro)
  • O balanço da Bossa (Augusto de Campos)
  • Tropicália – Alegoria, Alegria (Celso Favaretto)
  • Documentário – Uma noite em 67
Uma noite em 67, documentário dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil.
 

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