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11/03/20 | Centro Cultural

PESSOAS EM PESSOA – Letra em Cena. Como ler… destacou as almas que habitam Fernando Pessoa

Alberto Caiero, Ricardo Reis, Bernardo Soares, Álvaro de Campos, Vicente Guedes, Rafael Baldaia e outras mais 130 pessoas habitam o poeta e escritor português Fernando Pessoa, primeiro nome da literatura em língua portuguesa não brasileira analisado no programa literário do Minas Tênis Clube, “Letra em cena. Como ler…”. Para um público de mais de 200 pessoas, Maria Esther Maciel, professora de literatura da UFMG, apresentou a pesquisa realizada pela “Equipa Pessoa”, de Lisboa, que a cada ano descobre mais pessoas de Pessoa e ainda mantém o poeta publicando obras inéditas 85 anos depois de sua morte.  A atriz e mestra em literatura Bruna Kalil Othero fez a leitura dramática de alguns do heterônimos de pessoa, trazendo para si e para o deleite do público as características de cada um dos autores lidos. A próxima sessão do “Letra em Cena. Como ler…” será dedicada a obra de Pedro Nava, sob o olhar do professor da UFMG Antônio Sérgio Bueno, no dia 7 de abril, às 19h, no Café do CCMTC. A inscrição para assistir a palestra pode ser feita, gratuitamente, no site da Sympla.

Como cantou Caetano Veloso, “minha pátria é minha língua”, em verso livremente inspirado no poema “A Minha Pátria é a Língua Portuguesa”, foi observado durante o colóquio de Maria Esther que artistas brasileiros se inspiram em Pessoa. Ficando apenas em Caetano, além da canção “Língua”, o compositor baiano também fez “Os Argonautas”, em que no refrão diz “navegar é preciso, viver não é preciso”, do poema intitulado “Navegar é preciso”, do autor português. “O amor do brasileiro por Pessoa se deve à variedade de dicções do autor e ao seu lirismo. As inquietações dele fascinam o artista brasileiro, que é claro, também se encanta pelo trato com a língua”, diz a professora.

Segundo Maria Esther, há, até o momento, 136 heterônimos conhecidos de Fernando Pessoa. “Foram identificados 136 autores de Pessoa, sendo que Alberto Caiero é a chave do drama pessoano. Ele surgiu em 8 de março de 1914, enquanto Pessoa escrevia o poema ‘O guardador de rebanhos’”, explicou. A partir daí, Pessoa assume sua múltipla identidade e, para cada heterônimo, criou uma assinatura. “Tudo se misturou na obra de Pessoa. Imaginação, ficção e realidade. Ele embaralhou as referências de suas existências. Sua vida esteve o tempo todo atravessada por sua obra”, afirmou a palestrante.

Ao longo dos anos e com o aprofundamento das pesquisas da “Equipa Pessoa”, vem sendo publicados mais textos e mais autores. “Fernando pessoa é inquietante, possui uma multiplicidade que nos leva a um absurdo delírio. Rafael Baldaia, um de seus heterônimos, chegou a escrever livros de astrologia e a fazer mapas astrais, chegando a ganhar dinheiro com isso”, contou Maria Esther. De fato, no poema “Não sei quantas almas tenho”, do próprio Pessoa, ele afirma: “De tanto ser, só tenho alma/Quem tem alma não tem calma/Quem vê é só o que vê/Quem sente não é quem é”.

Ao fim da palestra, o público, embriagado pela explicação de Maria Esther Maciel, chegou à conclusão que Fernando Pessoa é um “work in progress”. Como sua poesia, ele e as mais de cem almas que habitam seu inquietante ser, não cansa de navegar. “A forma para a casar com o que eu sou: Viver não/ É necessário; o que é necessário é criar”.

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