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10/08/20 | Centro Cultural

SEMPRE CLARICE – Marina Colasanti analisou a obra de Clarice Lispector na primeira sessão on-line do Letra em Cena

A primeira sessão no formato on-line do programa literário do Minas Tênis Clube, “Letra em cena. Como ler…”, foi dedicado à obra de Clarice Lispector (1920 – 1977). Em 1h30 de live, José Eduardo Gonçalves, curador do programa, conversou com a escritora Marina Colasanti, editora e amiga de Clarice. A atriz e escritora Bruna Kalil Othero fez a leitura da crônica “Tentação”. Durante a exibição, a live contou com 500 visualizações simultâneas no Facebook, Instagram e Youtube. Até o momento, a versão on-line do “Letra em Cena. Como ler Clarice Lispcetor” contabilizou 2,8 mil visualizações no canal oficial do Minas Tênis Clube no Youtube. Durante o evento, o público participou  enviando perguntas e fazendo comentários sobre a genialidade da escritora. A sessão pode ser vista aqui.

Segundo Marina Colasanti, a primeira vez que viu Clarice foi na casa da escritora, quando acompanhava um colega de redação. “Ela não nos recebeu, a sala estava em penumbra e ela adentrou. Tive a impressão de uma mulher estupenda. Ela estava vestida com uma roupa preta de mangas compridas, e eu lembro as mangas porque faziam sobressair as mãos, muito bonitas e pálidas. Ela usava duas pulseiras, uma em cada punho, de cobre martelado. Me chamou atenção esse cuidado da indumentária e ela estava maquiada. Nunca vi Clarice sem maquiagem”, lembrou Marina, ainda encantada com a figura da escritora. De acordo com a memória de Marina, a conversa foi difícil. “Ela deixava no ar uma série de reticências. O interlocutor não sabia se era para ele entrar, ou se era para deixar um espaço para ela continuar a frase”, conta.

Tentando compreender a personalidade de Clarice, José Eduardo lembrou o posfácio que Marina Colasanti escreveu para a edição comemorativa do livro “Felicidade Clandestina”, lançada em 2019. “No texto você fala que Clarice era uma mulher em forma de atenção. E essa atenção tem dois gumes, um para fora e outro que sangra para dentro”, observou o jornalista. Marina contou que “Clarice dizia que ‘no precede o acontecimento, é ali que eu vivo’. Deve ser angustiante viver antes do acontecimento porque ele é a coisa em si. O que precede é a névoa e fica em suspenso viver antes do acontecimento”. Essa forma de vida de Clarice está muito presente em seus escritos. “Seja nos romances, ou nos contos, é como se tudo fosse virar de ponta cabeça. O leitor vai acompanhando os fatos, tateando, porque nunca sabe o que vai acontecer. Há um fio estendido por cima de um abismo, em que o leitor acompanha os passos da autora sem vara para se equilibrar. É essa a força da literatura de Clarice”, explicou Marina.

Questionada pelos participantes da live se Clarice era feminista, Marina disse que não. “Ela não era feminista e nem deixava de ser. Nunca falou mal de feminismo e nunca defendeu as mulheres”, explicou. Marina observou que “Clarice não estava ligada nas questões do momento, não teria navegado nas redes sociais e não estaria colada nos noticiários. Ela procurava o núcleo das coisas e das pessoas. Buscando o outro, Clarice se procurava. O que é isso: o esforço da busca do entendimento do outro a levaria ao entendimento de si mesma”, explicou.

Marina contou uma curiosidade sobre a cartomante da obra “A hora da estrela”. “Affonso (Romano de Sant’Anna) e eu dissemos a ela que tinha uma cartomante recomendadíssima. Nós três fomos no fusca de Affonso até a casa de dona Nadir, a cartomante, que fez uma consulta com cada um de nós. Clarice adorou e ficou com ela até quando foi possível visitar e a colocou em ‘A hora da estrela’”, contou Marina, divertidamente.

Clarice tinha certeza, segundo Marina, de seu legado e seu talento. “Ela tinha plena consciência da sua importância e do que ela tinha feito. Não sei se estava segura, mas ela fez exatamente o que queria, contrariando tudo. No começo ela teve muita dificuldade, achavam que ela era difícil, que não venderia, mas ela só fez, na literatura, o que ela queria fazer”.

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