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19/08/17 | Centro Cultural

Testemunha de luta

Ponto de Partida - Vou Voltar (42)

O Grupo Ponto de Partida da cidade de Barbacena estreou sua nova peça no Teatro Bradesco do Centro Cultural Minas Tênis Clube, Vou Voltar. O espetáculo conta a história da trupe uruguaia El Galpón que, na ditadura do seu país sede foi proibida de trabalhar, tendo seus atores torturados e exilados e seus bens confiscados. A segunda sessão do espetáculo será no sábado, dia 19 de agosto, às 20h. Os ingressos custam R$40 (inteira). Confira as fotos aqui.

Trata-se de um espetáculo longo e envolvente, além das canções do repertório da música popular brasileira, o enredo tem o auxílio de canções uruguaias. Os tempos bicudos das ditaduras que tomaram conta dos países da América Latina como Uruguai, Argentina, Chile e Brasil, são contatos sem censura com as cenas de tortura física e psicológica apresentadas de forma densa.

A gratidão deles para com o embaixador mexicano que deu asilo e abrigo no Uruguai e viagem segura para o seu país da América do Norte é mostrada de maneira tocante e sensível. O tempo todos os atores param a peça para dar informações históricas e apresentar razões para se ter humanidade e sensibilidade na questão dos refugiados. A forma como os atores do El Galpón foram recepcionados no México é enfatizada e reforçada como sendo um exemplo para o mundo.

A dor psicológica dos atores que passaram sete anos exilados no México é exposta visceralmente. “A alegria é um delito de alta traição”, diz uma das personagens durante uma discussão assumindo para seus colegas que por alguns momentos sente leveza. A recordação do país, da família, dos amigos é uma constante forma de manter a força. “O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória…”, diz um dos personagens escrevendo uma carta para o amado afirmando ter lido num livro de uma autora brasileira, Adélia Prado.

Ao mesmo tempo em que o sofrimento é intenso, a vida não para e os atores resolvem seguir em frente e voltar a atuar. O trabalho os mantém vivos e ativos. Eles se tornam família, vão crescendo, criando laços, criando filhos, perdendo parentes e ficando cada vez mais duros, mas sem perde a ternura. “Há que se manter o saudável hábito da esperança” fala um dos personagens com braço erguido e o espetáculo deixa claro que o caminho para essa esperança não findar é a arte.

A peça é pontuada por canções de Chico Buarque de Hollanda, “Fantasia” e “Sabiá” (esta última não proibida pela ignorância dos oficiais da censura que não perceberam em sua letra uma explicita crítica ao exílio), Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, “Desenredo”, Roque Ferreira, “A mão do amor”, Ivan Lins e Vitor Martins, “Somos todos iguais nesta noite”, Jorge Drexler, “Le Edad del Cielo”, Milton Nascimento e Fernando Brant, “Canções e Momentos”, Caetano Veloso, “Os Mais Doces Bárbaros”, entre outras. Cada uma dessas músicas enfatiza o sentimento dos atores do El Galpón de medo, esperança, desejo de voltar e força de luta.

A mensagem do espetáculo é que a luta é o melhor caminho para a esperança e dignidade, e que a solidariedade e acolhimento é o caminho para um mundo mais pacífico. Por mais que a dor e a tristeza de estar longe de casa sejam fortes, o assombro da covardia de não ter lutado é mais intenso para os atores do grupo uruguaio. “A pior prisão é o medo”, eles afirmaram. E para a filha que estava longe, a mãe diz olhando para sua foto carinhosamente: “Amor não é só presença, é dignidade. Como iria olhar para você se não tivesse lutado pela liberdade”.

A lição que “Vou Voltar” deixa para o público está na canção que é executada sem ser cantada, surge de forma incidental, deixando claro que é preciso criar, recriar, viver para ir longe e também poder voltar. “Recriar cada momento belo/ já vivido e ir mais atravessar fronteiras do amanhecer /e ao entardecer olhar com calma (…) casa cheia de coragem, vida/ tira a mancha que há no meu ser”, “Anima”, de Milton Nascimento e José Renato.

 

 

 

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