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15/07/20 | Centro Cultural

VOLTE AOS CLÁSSICOS

A Assessoria de Comunicação do Minas Tênis Clube, na série de entrevistas Cultura em Pauta, conversou com o Elias Santos, jornalista, radialista, professor universitário e agitador cultural, ex-diretor artístico da Rádio Inconfidência ex-presidente da Empresa Mineira de Comunicação (EMC). Ele também é fã de basquete e faz parte do time dos veteranos do Minas Tênis Clube.

Nesta entrevista, Elias Santos fala sobre o panorama cultural, neste momento inédito vivenciado pela humanidade, e defende que, quando a pandemia passar, haverá espaço tanto para os eventos on-line como para os presenciais. “As pessoas vão continuar a querer ter a experiência do ao vivo, isso faz parte do humano, mas o on-line não vai acabar e vai achar o seu lugar. Uma experiência não elimina a outra, mas a modifica. A gente vai voltar àquela experiência (presencial), mas ela será diferente. Já está acontecendo! Pessoas acompanhando shows de dentro do carro, drive-in. No momento de crise, volte aos clássicos”, observa.

 

MTC – Houve uma expansão dos meios de comunicação e, além dos jornais, há blogs e jornalistas independentes. O senhor vê de forma positiva essa ampliação?

ES – Com certeza essa ampliação é positiva. Nós lutamos muito nos anos 1990, na época que eu era estudante, e a luta era a ideia de ter uma democratização dos meios de comunicação. De certa forma, essa briga continua, mas algumas etapas foram vencidas. Hoje, com a internet, ficou mais fácil, mais acessível e inclusive o próprio jornalista pode mudar de posição, pode se assumir um pouco mais, pode dar uma opinião mais clara no seu blog. Ele trabalha numa empresa, segue a linha dessa empresa, mas no seu blog particular pode dar a sua opinião. Claro que estou falando de um mundo ideal ainda, né? Mas a gente tem que caminhar para lá, e a expansão dos meios de comunicação é muito grande, não há dúvida nisso. A gente tem um momento positivo nessa ampliação, claro que nesse primeiro momento vão aparecer oportunistas, mas está valendo. Acho que essa ampliação é mais positiva que negativa.

 

MTC – O senhor acha que a forma como as pessoas consomem informação e cultura mudou na pandemia?

ES – Com certeza, a forma de consumo mudou. Não tem jeito. Se do lado da cultura você não tem mais a ida a eventos, aquele compartilhamento no bar, entre as pessoas, mudou a forma. Você está conseguindo a mesma coisa, continua necessitando consumir cultura, mas a forma de consumo mudou, e a informação também. E aí tem um detalhe interessante, há um aumento da audiência de rádio e televisão, principalmente de telejornais. Então é uma mudança que volta ao passado. No momento de crise, retorne aos clássicos.

 Elias Santos quando era apresentador na Rádio InconfidênciaElias Santos quando era apresentador na Rádio Inconfidência

MTC – Houve uma corrida para as novas formas de interação, aulas on-line, lives de shows, de palestras, de entrevistas. Como o senhor avalia essa aceleração de um processo que já estava acontecendo?

ES – O vírus acelerou vários processos e agora a gente está vivendo uma overdose. É aula on-line, reunião on-line, show on-line, parabéns on-line, torcer on-line, acompanhar o seu time on-line. Aí não. Espera aí! A gente não vai aguentar isso tudo on-line. Essa forma veio, ficou, mas a gente precisa do presencial. Nós temos que, aos poucos, a partir da dominação, do conhecimento do coronavírus, voltar para o presencial. O on-line veio exageradamente, mas vai chegar num equilíbrio e não vai sumir.

 

MTC – Como o senhor pensa que será o consumo de cultura depois da pandemia? Acha que as pessoas voltarão a frequentar as casas culturais?

ES – As pessoas vão continuar a querer ter a experiência do ao vivo, isso faz parte do humano, mas o on-line não vai acabar e vai achar o seu lugar. Voltando na história da comunicação, quando o rádio e televisão surgiram, muitos críticos do rádio e da TV, os filósofos da indústria cultural, falaram que as pessoas, infelizmente, iam ficar mais burras, que a cultura ia cair muito. Realmente, a cultura transmitida pelo rádio e pela televisão é mais pop, e até por questões de formato de transmissão de áudio e vídeo precisa ser um pouco mais leve. Mas as pessoas continuaram indo para concertos, ou seja, uma experiência não elimina a outra. Eu vou aos clássicos, na época em que se detonou muito o rádio e a TV, e esses veículos tentaram mesmo afastar as pessoas do consumo da cultura, mas depois se achou um equilíbrio. Uma experiência não elimina a outra, mas a modifica. A gente vai voltar àquela experiência, mas ela será diferente. Já está acontecendo! Pessoas acompanhando shows de dentro do carro, drive-in. O que é o drive-in? Um cinema norte-americano dos anos 1950, que tinha outro objetivo, das pessoas ficarem juntas dentro do carro. Mas agora não, voltou como uma saída para essa situação. Está vendo? No momento de crise, volte aos clássicos.

 

MTC – O senhor acredita que este momento pode ser positivo para os artistas? Pensando que estão tendo oportunidades gratuitas (as lives) para mostrar sua arte?

ES – Esse é um momento, sim, de oportunidade, mas não diria que é positivo, porque o faturamento caiu. Então é preciso achar uma saída para que você possa ter faturamento através das lives. Nós vamos ter que achar uma saída. Porque as pessoas pagavam para ir aos shows, para ir ao cinema, é preciso que elas paguem também para consumir on-line. Está sendo bom para o artista se divulgar, mas em termos de viver de seu trabalho, não está sendo bom. Eu tenho certeza que isso vai mudar, os artistas vão achar uma saída e encontrar alguma forma para receber pelo seu trabalho.

MTC – O senhor acredita que o investimento na cultura vai sofrer ainda mais nessa pandemia? E depois dela?

ES – Já está sofrendo muito com essa pandemia. Outro dia assisti a um vídeo sobre as pessoas do cinema, a situação está muito complexa. Se a música está conseguindo se virar, o cinema não consegue. São muitas pessoas envolvidas na produção cinematográfica que estão passando muita dificuldade. Não tem jeito, nesse momento o poder público tem que atuar, tem que entrar. A gente precisa que o poder público abrigue a área de cultura do nosso país.

 

MTC – O senhor pode dar dicas de lives culturais que acha que são relevantes para fortalecer a cultura nacional?

ES – É difícil porque vai muito de gosto. Acho que deve ir aos clássicos, ver como essa turma mais velha, Alceu Valença, Gilberto Gil, estão se virando com isso. Mas tem uma turma nova que já está mais adaptada a isso que também traz algo interessante. Você tem, aqui, em BH o Cliver Honorato que faz um trabalho bem legal. Eu acho que o importante neste momento é que você que gosta de cultura, consuma, mas se preocupe com o mercado, com a sustentabilidade. Então, procure lives que discutam a questão da cultura. É importante saber como funciona esse mercado, em que teve a iniciativa privada reinando, com as grandes gravadoras, com os meios de comunicação fazendo um trabalho de influenciar as pessoas, mas que dos anos 2000 para cá já estava em mudança, se abrindo mais, se tornando bem mais democrático.

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